Basta apenas abrirmos nossas mãos



Eu lhe apontaria uma direção. Se tivesse uma. Eu me apontaria na sua direção, se você não fosse atravessar a rua. Tenho plantado sorrisos em seu caminho pra ver se seus dias ganham cores mais vivas. Mas você passa cinza aqui por perto. E aperta o meu coração. Me preocupo com toda essa preocupação que deixa os seus olhos turvos ao cruzar com um bom dia meu. Diz que isso vai passar que é questão de tempo pra tudo melhorar. E o que não tem remédio, remediado vai ficar. Desculpa. Não acredito. E me esforço para que você enxergue todo o meu esforço para não te deixar cair.
É que você tem desaparecido nesse corre-corre que é a vida. E às vezes nem mesmo você sabe onde se encontrar. Quantas vezes no dia você espera os faróis abrirem, enquanto o seu coração ainda está fechado? Esse engarrafamento, de sensações mal resolvidas, está te deixando tão nublado, quanto às cidades que nunca dormem. Eu entendo você. Não tem por que duvidar. Eu sei que sofro do mesmo mal. Que a confusão aqui dentro é tão grande, que se explodisse, devastaria um mundo que ainda não existe. Mas é que eu deixo pra lá quando teimo em somar você na minha vida de subtrações injustas. Sei que assim como eu, você também inventa qualquer coisa pra livrar a mente da falta. Principalmente quando as tardes de domingo, gritam por companhia. Temos os mesmos problemas emocionais. E as soluções para eles também – nenhuma.
Guarda a respiração pra depois. Deixa que eu inspiro nós dois.
Vamos entregar nosso coração à tempestade. Esperar que ele seque límpido e que faça sol sobre nós. Meu bem. Não importa quantos medos ainda vamos ter que suportar.  Basta que encoste sua mão na minha, que tudo vai passar – Eu sei que vai. E já que não podemos mais mudar, tanta coisa errada. Tudo que sobra é espaço suficiente para habitarmos sem culpa. Sem restrições. Sem medidas... Seus abraços são do mesmo tamanho que os meus, podados por tanto tempo, que não merecem mais esperar pela entrega. Deixa que os dias passem inumeráveis. O que importa é que estejamos dentro deles pra lembrar depois. Esqueça as horas que passam rápidas demais, para a velocidade do nosso relógio travado pelos motivos que vão nos levar a ficar por muito tempo. Juntos no aqui e agora.
Já sabemos que amanhã não é tarde. Que esperar talvez seja vantagem. E que eu tenho toda a eternidade aqui para compartilhar com você. E se for pra tocar o silêncio, denso, no quarto vazio de calor. Que seja para repassar cada momento, luz, penumbra, sons, toques e cheiros. É quando tudo está quieto – incluindo o coração perturbado, já domado – que as lembranças boas viram projeções holográficas instantâneas. Quero você nelas o tempo inteiro. Se disser que vem, eu troco as coisas de lugar. Para parecer novo e em branco. Imagino cenas nulas. Papéis e canetas macias. Rabiscamo-nos ali. E que o passado arda quando tiver de arder. Seguro sua mão de novo. Esboço um sorriso novo. Invento um caminho novo. O importante é que a gente não fique pra depois.
Quando um coração se parte, na realidade ele não se parte. Quando são dois, partidos, por motivos comuns. Eles se juntam e se repartem. Se reconstroem. Seguem refeitos. Remendados. O amor-próprio-divido-em-partes-iguais brilhando nos olhos. Vivendo os sonhos, esquecendo o tempo perdido.
Vem e troca seus passos comigo?

Encantadoramente Ilustrado por Lays Salles

2 comentários

  1. É quase otimista, mas é realista e cheio de esperança. Muito bom ler novas inspirações. Espero que você consiga refletir isso em tudo que te rodeia! Ótima como sempre!

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    1. É o que eu digo. Você tem sempre os melhores elogios. Incentivos...
      E o que eu tenho é só o meu muito Obrigada!!!
      =D

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