É... Sentei distante. Pedi meu café, forte e
fumegante, só te observei de longe. E eu que acreditava no acaso, não quis
derrubar nada pra você pegar. Desisti de te olhar. Me concentrei nas páginas de
um romance que eu tinha certeza que daria certo na ultima página. Bem antes do “Fim”.
Mas você se aproximou, e quis perguntar sobre o tempo. Pediu pra se sentar e me
acompanhar no café – descafeinado e sem açúcar – emendou um assunto no outro.
Fez a hora passar sem ninguém perceber. Desisti do romance. Quis viver você.
Uma sequencia de coisas boas. Se repetiram
dia-após-dia em algo que não sei como chamar. De repente eu só queria ter a
sorte de te encontrar mais e mais. Só queria te ver bem. Só queria te ver. Pode
ser que tenha sido o mais perto do amor que eu já cheguei. Fomos infinitos em
todas as musicas que tocaram enquanto a conversa saia fácil. Passamos por todas
as fases que o coração pode passar. Todos os sorrisos. E os planos que sem
querer fazíamos juntos. Voamos alto demais. Fomos longe demais. E tudo que é
demais, de alguma forma sobra. Se desgasta. Tem um ponto final.
Poderia pensar que foi tudo um sonho. Daqueles
que não se quer acordar, mas não tem outro jeito. É vida outra vez. Me vesti de
qualquer jeito. E perdi boas horas do dia, rememorando tudo o que passou. E
ficou. Eu queria que fosse menos complicado. Que você fosse as reticências que
eu tanto gosto de usar, nas histórias que na verdade eu não sei contar. Queria
poder te pedir pra ficar e acrescentar um pouco mais de otimismo nessa minha
mania de não aceitar que os amores podem durar. Mas não posso. Não posso te
culpar. Afinal sou eu quem alimenta esse problema de não estar satisfeita com
muita coisa que envolva eu, e esse meu coração turbulento.
Você quis que tudo voltasse ao normal. Que o
café continuasse quente. Mas se nem os sentimentos conseguiram ficar aquecidos.
Diga-me como seriamos os mesmos sempre? Tudo isso que se passa em minha cabeça –
e no lado emocional do cérebro – é estranho até pra mim que preciso conviver
comigo todos os dias. E não adianta me fazer perguntas mudas, no cartão. Junto
com as rosas. Que parecem até eternas. Que eu não vou saber responder. Não. Eu
não sou insensível. E nem a parte que não sabe relevar. É que eu não sei como
lidar com o fato de que nosso romance não tenha uma ultima página. Ou um fim
entre aspas. Ou até mesmo um ponto em que tudo se resolve. Não tenho nada pra
acrescentar na sua vida. E você é tão concentrado no seu futuro. Planeja
metodicamente cada passo seu, até o sucesso. E queria que eu aprendesse todas
as coisas importantes pra você. Enquanto
eu batia o pé. Querendo só um dia com um pouco mais de sol. Pra inspirar uma
ideia nova. Eu ainda não sei sonhar com os pés no chão. E não tente me ensinar.
Eu sou complicada demais. Sei bem. Você deixou muito claro antes de bater a
porta. A saudade vai bater. Mas eu não vou saber o que fazer com ela. É melhor
deixar que virem lágrimas, para que eu encha o vidro em que aquelas rosas vão
ficar.
Ainda não sei o que foi. Mas deve
ter sido mesmo amor. Eu só não sei explicar. Por mais que eu tente, me embaraço
em todos os parágrafos.
Eu poderia ter levado tudo mais a sério. Como
você me pediu. Mas não sei como é ter alivio. Não posso mais encarar uma noite
de frente. Que você sempre me vem. Mas aos poucos as lembranças vão ficando
transparentes até sumirem de vez. Não somos mais nada, diante de tudo o que
vivemos. Foi bom. Mas é preciso aceitar o desapego. Fica bem. E dê um jeito de
se desapegar também. Encha um vidro de saudades que ainda...
Sobraram as ultimas flores. Que insistem em
não querer murchar.
Ilustrado por Tina Cezaretti e essas flores que nunca vão murchar.

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