Deixo os meus monólogos presos aos papéis. Empilhados.
Empoeirados. Até espalhados. Para lembrar que estar só, é poder correr. E conseguir
sentir o vento invadir. Que andar na contra mão é perder-se de si. E não ter o desprazer
de esbarrar em alguém que arrancaria um pedaço do seu mundo. Que arrastar os
pés e reclamar do mundo, é mesquinharia quando se deveria ter aprendido a voar.
Você pede por conforto e reza agradecendo por nunca
ter tido uma farpa entre as unhas. Eu prendo o choro das farpas, e as deixo
inflamar. Agradecendo pela resistência. E pelas asas que não deixo cortar. Aprendi
a ter coragem, com o medo que atiraram sobre meus pés. Com a certeza de que
pedir ajuda é ver a barreira aumentar. Sondei alguns sonhos velhos, e eles me
disseram que frear desejos é nunca saborear a morte da falta. Eu deixo meu
futuro certo. Aqui. E fique a vontade se quiser usar. Negligencio a minha
caridade. E a sobra de vocação em ser risos e apertos de mãos vazios.
Ganhei um sobrenome. Mas dispenso a minha sentença.
E já presenciei filas. Queriam arrancar as minhas
vontades. Indiferente. Descrente. Deixo à sorte pra quem quiser falhar. Fomos pessoas boas, antes de matar a inocência com um olho gordo. E se está
bom assim. Com licença. Mas eu não paro. Quero ser ruim. Se ruim me custar não
ser igual a você. De mãos e pés amarrados, você se mantém impecável. E eu voo,
de encontro ao mesmo vento, desordenada, poeira grudando ao suor. Mãos e pés
sujos, porém limpos. Rasguei livros. Devorei minhas páginas. Incinerei capítulos.
E recomecei o era-uma-vez, mais vezes do que deveria. Seria mais fácil se a
história não tivesse que começar sempre igual.
Minhas vaidades são os freios que eu não tenho.
Ando quebrada. E até meus cacos mais ínfimos são
mais inteiros do que o todo, que levou a tua paz. Pra dizer que valeu a pena. Você
não existiu. E vai continuar na penumbra de um eu que espera o fim. Enquanto vê
o aqui-e-o-agora passar na rua de trás, levando um saco de pão e uma cesta de
frutas para comemorar comigo. Te vejo em roupas caras. E projetos sólidos.
Meus tesouros. São os planos que eu nunca fiz.
Chegarei ao final. Quando o final quiser me levar
até lá.
E no caminho das estradas que andei na contra mão.
Se eu te encontrar e você já tiver chegado ao fim. Cansado e sem cor. Preso a
tudo que passou, e não te levou. Sem vida. Sem pulsações mais fortes. Sem um
norte. Cheio de dias. Vazio de existência. E se eu puder lhe aconselhar.
Esqueça-se de puxar os freios. Desça a ladeira sem
medo. É assim que se vê como se é feliz.
Ilustrado brilhantemente por Lays Salles
Texto inspirado na canção "Eleonor" dos Nessuno e os Cães de Pavlov
Ouça a canção aqui: http://migre.me/e5MhQ
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