Quis... Mas não fiz mais nada além de querer



Queria que você soubesse que eu gritei. Gritei muito. Mas o silencio crônico – e o isolamento acústico do seu ego – não permitiu que você me ouvisse. Permaneci aqui, feito à lata-de-cerveja-quente que você desperdiçou.
Eu quis te levar pra casa. Eu quis estar em sua mente turva pela bebida. Quis que você lembrasse o meu rosto entre a ressaca e coragem pra levantar. Mas fiquei no canto mais escuro do bar.

Disfarcei minhas intenções aquela noite. Disfarcei as olheiras. Vesti uma bota. Um jeito social. Que não era meu. Quis ficar parecida com a sua turma. Quis me aproximar. Quis ter as mesmas conversas. Mas só soube concordar com todos e esticar sorrisinhos-de-meia-tigela sobre a mesa. E os pensamentos muito longe dali. Fiquei um pouco tonta e quase tropecei no meu próprio fingimento. Eu quis que você me segurasse. Mas só consegui continuar com os ombros encolhidos. Aquele olho preto-esfumado não era meu. O delineador borrado também não. Nem mesmo o perfume forte pra ver se você notava o cheiro... Nada ali se parecia comigo. A não ser a vontade de te encarar. Passei despercebida. Sem sal. Sem graça. Sem jeito. Eu era sombra. E você holofote.

Eu quis saber me comportar usando aquele vestido. Mas só consegui ficar com as pernas e os pés doendo. 
Aquele mundo não era meu. A rua. As pessoas. As horas. Os semáforos. As filas. Todos sedentos por atenção. Eu não pertencia aquele lugar. O estomago já estava meio revirado. E a fumaça fazia a minha cabeça doer. Nada daquilo era eu. Eu não sei dançar. Pular. Pintar o cabelo com uma cor forte. Usar roupa apertada. Ter unhas compridas. Um rosto liso. Eu quis me parecer com a atmosfera que te ronda. Quis mais ainda que você me enxergasse. Por dentro. Que tirasse os olhos dos decotes profundos. Dos saltos Agulhas. Dos cabelos alinhados. Compridos. Dos drinques coloridos. Das roupas caras. Que não era eu. Quis ter a pele colorida. Descolada. Mas não estava nem dourada pelo sol. Quis ter o tom articulado ao falar. Mas o maldito silencio, crônico, só tampava a garganta. Eu quis gritar de novo. E só Deus sabe o quanto arde o coração. O quanto à boca seca. E nos ouvidos... Um zumbido que durou semanas. Eu quis te chamar de meu bem. Mas só consegui descobrir o seu nome. O seu endereço nas redes sociais. Eu quis marcar um território meu – ali do seu lado. Mas não consegui sair do canto escuro do bar.  

Deveria ter dito, mas só fiquei te olhando. Escrevi um bilhete no guardanapo e deixei no bolso da sua jaqueta, pendurada na porta do bar lotado. Você foi embora. Esqueceu a jaqueta. O bilhete. Nem se sequer reparou em mim. Eu guardei a sua voz e os solos de guitarra que você disparou. Parecia tão confiante. Mas talvez tenha sido só os seus óculos escuros, e as doses exageradas de álcool, que te davam segurança. Fora dele você era como os outros. Confuso. Perdido. Sem ter com quem voltar pro lar. E ninguém pra pensar antes de dormir.
Eu quis você. Mas não passou do boa-noite. Dos refrões que cantei. Sem você perceber. Da cerveja quente que você derramou. E eu quis enxugar.


Ilustrado pelas minhas queridas Susi Godoy e Sheila Carvalho

2 comentários

  1. Underground esse texto ficou hein?! rsrsrs Gostei! Escrevi uma música com esse tema a uns anos atrás.
    Memórias vieram quando o li!

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