De ontem, hoje e amanhã em diante

De ontem em diante não tem graus Celsius abaixo de zero que nos esfrie.
Mesmo que eu chegue em casa, e ela esteja vazia, fria, ou sem vida nenhuma me basta fechar os olhos pra me atirar às lembranças e preencher qualquer vão que ainda possa existir. Não tem mais jeito você me tira o ar, a terra, a água e ateia fogo ao sossego que eu nunca gostei. Somos a euforia em escalas milimétricas sem fim. Aliás, entre nós não tem medidas. E quando o silêncio nos domina por completo ele deixa o clima do cômodo tão leve quanto à falta de gravidade na lua, flutuamos por entre os suspiros vagarosos e a comunicação sintonizada entre o seu peito e o meu ouvido, é ali que transmitimos todo e qualquer sentimento bom que podemos compartilhar.
De ontem em diante compartilho até tudo o que eu não tenho com você.
A nossa canção não tem ritmo definido. Não tem instrumento que a toque com clareza. Ela toca fraca. Sutil. Quase sussurrante no telhado, molhando o mundo. Abafando o quarto que antes era frio. Pontas de dedos gelados pela estação percorrem o caminho mais longo pra lugar nenhum. Não precisamos chegar, é aqui que queremos ficar. E digo tudo isso na segunda pessoa do plural porque o eu e você já ficaram para trás, deixando o nós se aninhar no tapete e se alimentar desse amor todo que nos mantém ofegantes.
Taças de paixão substituindo o vinho que já terminou. Nos ruborizou. Alterou nossos batimentos cardíacos. Abafou a chuva. Espantou o frio. Me aconchego nos seus braços quentes e enquanto eles adormecem nos mantemos acordados pela agradável atmosfera da nossa companhia. Nossos pés frios se enroscam em um nó quase cego, esquentando cada centímetro do nosso corpo incandescente. Eu não me arriscaria a querer parar o tempo só pelo egoísmo de desejar que você permaneça do meu lado enquanto o mundo não acaba lá fora.
De ontem em diante todo instante ao seu lado, passa perto do eterno.
E eu que andei descalça e devagar sobre os cacos de tudo que passou e ficou espalhado, pela calçada, pelo chão da sala. Já não tenho medo de cair de cabeça nessa verdade que envolve e protege o nosso amor. É que o medo do passado nunca levou a ninguém a lugar nenhum. E eu te prometo. Prometo que serei eu mesma dentro das mudanças que me fizerem melhor pra estar ao seu lado, nesse instante e pra sempre. Desmedindo forças. Pelo fato complicado de não poder te prometer que não haverá pontes indestrutíveis entre nós, mas atravessaremos devagarzinho ultrapassando as ripas frágeis que por ventura estiverem em baixo de nossos passos. Uno minha mão a sua e não há vento, tornado ou furacão que devaste nossa morada.

De ontem, hoje, amanhã em diante serei seu porto – inevitavelmente inseguro – disposta a dissipar seus pesadelos, e tornar seus dias mais claros. Enfrentar seus medos. Te descobrir até quando não restar mais nada em você que eu já não conheça. 


Ilustrado por Jefferson Ramos

2 comentários

  1. Magnífica!! Esse será o texto musicado, eu acho, hein?! rsrsrs Você sabe muito o que faz!

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    1. Muito Obrigada Mais uma Vez como sempre!!!
      Opaa... Texto Musicado Escolhido...
      Agora falta uma musica para eu atextalhar... hahaha

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