Às paredes frias


Você que tem me observado nas noites em que as janelas não suam. Saiba que não me atreverei a acender as luzes. Pelo menos não esta manhã. Sei que eu deveria, mas não aprendi a ser uma boa companhia pra mim. Como é que alguém se acostumaria a viver do meu lado desse jeito, fico agoniada com o meu silêncio, e me embaraço com uma respiração a mais no escuro do quarto. Por mais que me sinta desprotegida sem meia dúzia de cobertores nesse frio que corta. E ainda teime em trancar portas e janelas quando nem os cachorros uivam na madrugada, fico satisfeita com o café quente pela manhã. E não tente me convencer que você é fria demais pra continuar me fazendo companhia, e que sobre mim só há um teto escuro porque a lâmpada já está queimada há mais de uma semana. Exatamente o tempo que me dei conta de que a solidão me basta e que qualquer frequência equalizada no rádio já tampam o vão entre os pensamentos sombrios e a vontade de não pensar em mais nada – em mais ninguém. 


Deveria pedir desculpas por te manter descascada e sem cor. Mas é que assim você me lembra de que nada adianta o colorir uma coisa que mais cedo ou mais tarde vai perder a graça, e acabar ficando meio cinza, meio branca, não sei. Aliás, essa falta de cuidado tem sido a minha melhor característica – poderia até dizer melhor qualidade. Não me interessa nem curar essa gripe forte que resolveu grudar em mim, entre corizas, tosses e espirros sincronizo canções que ninguém jamais ousou em cantar pra mim. E se cantou, foi melodiosa demais para prender minha atenção a tão pouco.

E logo eu que não tenho interesse por finais felizes e nem companhias mais quentes, ando contente com a minha sombra inerte projetada em você sob a luz amarela das velas que, pouco, iluminam os batimentos normalmente ritmados. Não tem nada que me acelere o peito. Não tem nada que me acalme a alma. Já tive euforia em brasas e hoje só prefiro ter calma. Você me entende. E vai ser a única a me entender quando tudo ainda continuar não fazendo sentido nenhum. É bom que permaneça sólida e que não decida desabar sobre minhas costas, estou forte demais para me desgastar com um conserto fora de hora. 


Ilustrado por Susi Godoy

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