Deveria pedir desculpas por te manter
descascada e sem cor. Mas é que assim você me lembra de que nada adianta o
colorir uma coisa que mais cedo ou mais tarde vai perder a graça, e acabar
ficando meio cinza, meio branca, não sei. Aliás, essa falta de cuidado tem sido
a minha melhor característica – poderia até dizer melhor qualidade. Não me
interessa nem curar essa gripe forte que resolveu grudar em mim, entre corizas,
tosses e espirros sincronizo canções que ninguém jamais ousou em cantar pra
mim. E se cantou, foi melodiosa demais para prender minha atenção a tão pouco.
E logo eu que não tenho interesse por finais
felizes e nem companhias mais quentes, ando contente com a minha sombra inerte
projetada em você sob a luz amarela das velas que, pouco, iluminam os
batimentos normalmente ritmados. Não tem nada que me acelere o peito. Não tem
nada que me acalme a alma. Já tive euforia em brasas e hoje só prefiro ter
calma. Você me entende. E vai ser a única a me entender quando tudo ainda
continuar não fazendo sentido nenhum. É bom que permaneça sólida e que não
decida desabar sobre minhas costas, estou forte demais para me desgastar com um
conserto fora de hora.
Ilustrado por Susi Godoy

A P A I X O N A D A!!
ResponderExcluirLarissa Dourado