A manhã
era tão fria quanto o seu coração.
Havia
tantos livros em sua cabeceira, que era praticamente impossível calcular suas
rotas de fuga. Apegava-se tão fácil a pequenas frases, não porque eram bonitas
ou algo parecido. Mas sim por que a afastavam de um mundo, no qual não via
sentido algum.
Por mais
que desejasse voar, fugir, libertar, desprender, evaporar. Sabia que não era
possível por milhões de causas sem fundamentos. Sentia seus pés cada vez mais
pesados, presos ao chão, focados em ter que caminhar em direção a um futuro
cujo nem tem tinha intenções de parar para refletir. Sim, ela tinha um profundo respeito e
admiração para com aqueles que guardavam em baixo do travesseiro, um mapa detalhado
do que queriam para suas vidas. Sabia também que era seguro ter um mapa desses.
Mas, por mais que o ‘X’ da vida confortável, estivesse marcado há anos luz do
hoje. E embaixo dele houvesse um baú cheio de promessas melhores ainda. Ainda
sim ela preferiria continuar pensando em condições que melhorasse a sua visão,
para que pudesse juntar o máximo de ferramentas, que a ajudasse a garimpar os
melhores tesouros – sem valor capital nenhum – e assim manter um propósito
melhor para cada abrir de olhos.
Aos poucos
ia arrancando as expectativas daninhas, da sua plantação de coragem-perseverança-amor-próprio.
E anotou em suas tarefas, a confecção de um espantalho para que não deixasse
nenhum medo chegar perto. Aceitaria conselhos, analisaria minuciosamente cada
detalhe, cada incentivo, cada motivação alheia. Mas continuaria sem roteiros definidos.
E mesmo
em frias manhãs, estaria concentrada nas alternativas que aqueceria o seu
coração. Naturalmente sem apelações sentimentais.
Foto por Jefferson Ramos

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