Colecionando Partidas


 - Adeus! Mantenho contato, não chore.

Não só era fácil de acreditar. Como era impossível de suspeitar, da sinceridade daquele olhar. Ele não olhou para trás e seus passos eram cada vez mais longos e apressados. Nunca mais voltou a ligar.

Ela esperou, sem esperança nenhuma, mas esperou. Sentou ao lado do telefone. Não desligava o celular. Conferia a caixa de e-mails a cada cinco segundos. E não havia nada além de propagandas, spams e bons-dias interesseiros. Começou a se preocupar com a chance de desenvolver uma gastrite, pois os seus nervos à flor da pele, eram regados por café forte – muito forte. Isso sem falar nas noites que frequentemente passava em claro. Ensaiando uma maneira de tomar as rédeas da situação. Tentando encontrar palavras adequadas para começar um e-mail, sms, carta, telegrama... o problema era que não sabia se queria despedir-se para sempre, ou, dizer ‘olá, estou desesperada pela sua volta!’.  Decidiu travar uma amizade com o backspace, e deixar em branco o que nunca teve a menor possibilidade de ser colorido. Não havia retornos...

Achou melhor esquecer tudo o que sabia sobre tempo. E aceitar o fato de que ele sabia o que estava fazendo, quando achou melhor ir embora e deixar as coisas esfriarem por si só. Amanhã sempre seria outro dia. Ou não? – seria mais adequado pensar que sim. Só pelo estranho prazer de achar que tudo se ajeita. Se transforma. Se entende. Quando tem que ser.

Sim, ela levava os acasos da vida em baixo do braço, e usava como mantra sagrado, todas as vezes que os muros ameaçavam desmoronar.  Ansiava esquecer que mesmo estremecendo... Morrendo com a distância, se fazia de forte perante o universo. Mesmo sem nunca ter sido atendida, pediu uma pausa para o mundo. Para calibrar a sua coragem e encerrar esse ciclo doentio, sem dó nem piedade da vontade de olhar para trás. 

Por fim conseguiu entender. Mesmo que tenha custado, algumas dores de cabeça. Parado tudo o que estava fazendo para pensar, pensar, e repensar. Entendeu. Não porque queria entender. Mas sim porque era necessário, cessar todas as suas inquietações. Pelo menos até que outro personagem, desse inicio a mais uma trama para a sua coleção de partidas.  


Foto: Susi Godoy

2 comentários

  1. Arte contemporânea não define isso, mesmo a arte contemporânea não tem definição..rsrsrs Os livros de antropologia e antroposofia seriam mais fáceis de entender se fossem escritos por você. Você escreve de um jeito muito tocante.

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    1. Deixe os autores ficarem sabendo disso!!! Muito obrigada mais uma vez!!! =)

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