Radiografias




 “Quer saber mesmo em que eu acredito. Que você está predestinada a viver sozinha, com seus pensamentos, blocos de anotações, musicas e livros. E deixo claro os motivos desta convicção.

Nunca quis holofotes brilhando sobre você. Cora visivelmente ao menor sinal de elogio. Sempre explica o que diz sem pensar, na tentativa vergonhosa de desfazer possíveis pré-conceitos. Acredita que afasta pessoas, por não ter medo de contar suas manias. Sente-se muito velha antes do tempo. Não cansa de viver sonhando, até que a realidade lhe sopra aos ouvidos causando um arrepio desconfortável. É totalmente contra a massa que se forma, e a favor de quem se reinventa todos os dias.  A sua concentração me causa uma inveja, até boa, mas nunca conheci alguém que se distraia tão fácil como você. Lunática de registro em cartório perde um dedo tropeçando, mas não desvia o olhar do céu.

Acredita na relação entre o-que-está-acontecendo, e, o-tem-que-ser-assim, sem se importar na quantidade lastimável de lágrimas que já derramou. É decidida demais, e pelo amor de Deus, uma indecisão de vez em quando é mais saudável, do que ter uma decepção catastrófica a cada cinco minutos. Preza o silêncio e seu gosto musical. Prefere não discutir, ou simplesmente aceita a oposição, para não ter que declarar guerra. Gosta de estar só, mas chora baixinho quando se sente solitária. Inunda a mente com afazeres múltiplos, ideias novas, hobbies interessantes, habilidades renovadas, histórias diferentes, tudo para se autossuportar. Afinal a sua companhia é garantida a você sempre.   

Seu senso de independência me assusta. Já está na hora de aprender a dizer não, sem se punir por não querer magoar alguém. Bem como parar de acumular sentimentos demais, por favor, não tente me explicar, você sabe muito bem que tem medo de dizer o que sente. Tem seus motivos e não pretendo contestá-los. E não se faça perguntas demais, já que é sempre você mesma que as responde e nunca se satisfaz. 

Sem desesperos, permita que eu me explique melhor. Não é uma sentença definitiva, e nem a hora exata de te manter em cárcere privado, a mercê de suas aflições internas. Claro que não. Essa minha convicção vem de anos lhe observando. Fazendo anotações e pesquisas ao longo da sua existência. Peço minhas sinceras desculpas por manifestar-me só agora. E espero que tudo seja levado em consideração. No entanto respeito e aceito toda e qualquer decisão sua.”

Cara Consciência... Talvez tenha toda razão. Ou seu diagnostico esteja errado e precoce demais. Aceito muitas condições a meu respeito, que possa parecer torto e inútil, pra você que não tem paciência nenhuma em se aprofundar em de fato conhecer-me. Obrigada pelos alertas, foram duros e acertaram como flechas no alvo. Quem sabe da próxima vez – rezo para não haver próxima vez – cravo em mim suas radiografias.



Foto: Jefferson Ramos

3 comentários

  1. Você não tem crises criativas não? rsrs Todos temos, e delas vem texto surpreendentes como este. Sem elas escrevemos a primeira bobagem sem sentido que vem a mente. É sempre bom ver coisas elaboradas com carinho, pensadas de várias maneiras e bem concisa.

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    1. "Crises Criativas" passarei a usar isso como titulo as minhas crises...rsrs!! Muito obrigada mais uma vez!!

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    2. rsrsrs... Isto fica feliz em ser útil! :)

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