“Ah, comigo está tudo
ótimo, e com você?”
Esperou a resposta, e o
fim da conversa. Deixou que duas, ou quatro mil, lágrimas escorressem pelo seu
rosto. Pálido sob a má vontade de encarar o sol. Até recuperar, um décimo de
seu raciocínio lógico, e tomar algumas providências.
Não estava nada bem.
Quem dirá ‘tudo ótimo’. Mas quem se importava. Não era isso que todos queriam
ouvir a seu respeito. Pouco importava a profundidade de suas olheiras, e suas
pequenas linhas de preocupação, que já começavam a aflorar – apesar da pouca
idade. Afinal de contas se dissesse que não estava bem. No máximo ouviria um
‘não fique assim’. E não era bem isso que a faria se sentir melhor. E sentir-se
bem, melhor, sorridente, espalhando pétalas de rosas, geralmente parecia mais
uma obrigação. Do que uma parte do que se precisava ter.
Realmente não entendia o
porquê as pessoas não se contentavam com o pouco - o que tinham de fato - e
precisavam de mais (Sempre mais). Talvez fosse pelo direito de alimentar seus
atos exibicionistas de plantão, e esfregar na cara do mundo seu poder de compra
e venda de felicidade. Duvidava, se realmente sabiam o que era felicidade.
Pareciam estar imersos em uma projeção de final de vida. E o que vinha pelo
caminho, merecia descarte imediato. Repudiavam melodias que retratassem algum
sofrimento, por mais fantasioso que fosse. E a ignoravam por achar tudo aquilo
interessante. Quem é que estaria errado? Talvez ninguém.
Enquanto o mundo – 7 bilhões
de almas e corpos - estava inclinado a assinar o protocolo de ‘Smile box’ que
permitia a emissão de porcentagens irrisórias de realidade falsa. Causando um
efeito viral absurdo da definição do que é estar bem. Ela continuaria
acreditando na escravização das fórmulas indiscutíveis. Trabalhando arduamente
na solidez de suas limitações. Acreditando que sentir-se ‘mal’ não trazia tanta
desvantagem. E a soberania da felicidade era frágil e não erradicava a tristeza
do mundo.
Torceu os dedos.
Murmurou uma prece sutil. Suplicando que o direito de não estar bem não a
levasse a cadeira elétrica. E não lhe causasse um desassossego perante as leis existenciais.
Ilustração: Jefferson Ramos & Tina Cezaretti
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