Discrepância do Destino...



Ele não acordou cedo à toa. Deu um beijo no despertador. E um sorriso largo para luz que invadia a fresta da sua janela. Prometeu que não reclamaria nunca mais de uma segunda-feira. De dia nenhum. Desejou alto que ainda não fosse o fim. E não se importou com o sarcasmo das paredes. Era chegada a hora de se arriscar. De encarar. De abandonar todo aquele arrependimento.

- Você não merece minhas insistências. Tão pouco mereço que você pense em mim com seu coração. Sou todo errado. Completamente do avesso. Sei o quanto fui tolo em deixar que meu orgulho, pisoteasse as chances que você depositou em mim. Mas por favor, volte. Venha comigo. Não sei prometer nada concreto. Mas posso lhe garantir meus segredos mais sinceros. Você sabe. Eu sei. Não sou esses caras a moda antiga. Será que me perdoa pelas flores que nunca te dei? Eu posso tentar me redimir lhe oferecendo um ramalhete generoso de carinho e respeito. Sem medidas me deixe voltar para a sua vida. Sabe... Eu também não levanto a placa do romantismo falso exagerado. Aquele que o mundo inventa, só para parecer mais doce e disponível. Mas deixo a minha sinceridade, pratos limpos e um jantar a luz de velas. Quando você quiser. Basta apenas dizer que me aceita.

Ela decidiu não voltar. Não porque o caminho havia sido tortuoso, íngreme e exaustivo. Só não queria mais estar lá.

- Eu também sou do avesso. E sei que você não me aceita assim. Vai tentar me desvirar, mesmo dizendo que assim está ótimo. E já adianto que só do lado contrario sou quem posso ser. Você é o príncipe que minha mãe disse que viria antes do sono chegar. Mas a minha vocação para ficar presa na torre, ser delicada e indefesa, esperando você e um cavalo branco. Não existe, nem em fantasias. Assim como o desejo, pelos “Finais Felizes”, que se foi junto com a doação dos contos de fadas. Suas palavras até tocaram o ponto fraco das minhas razões, senti como se sua voz me oferecesse um porto seguro. Mas eu gosto mesmo é de quebrar a cara. Exagerar um pouco.  E se até a minha sombra, se recolhe, descansa, e me deixa em paz quando a luz se torna fraca. Se apaga.  Acho que você poderia fazer o mesmo.  Você me bagunça por inteiro, e não me oferece motivos suficientes para aceitá-lo. Ou não. Já faz tempo, eu transformei todo esse amor em piedade. E desculpe-me, mas as suas escolhas, só me fizeram viver desprendida do que sou; por anos. E agora que consegui juntar todos meus pedaços. Me refazer as próprias custas. Apenas não lhe desejo nada. Nem mesmo esse arrependimento. Já que por aqui não vejo nenhum sinal que me faça retroceder.

              Estava tudo bem. Se não bem. Pelo menos como deveria ser...

Lados opostos. Beijos na testa. Suplicas de fique mais um pouco. E olhos de nunca mais. Fotos rasgadas pela metade. Porta-retratos quebrados, para não correr o risco de faíscas de lembranças, queimar novamente seus corações.  

Ilustrado por: Lays Salles

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