Somos começo e meio de um fim, que na verdade
ainda não acabou. Por você passei sete chaves em alguns baús, pra ninguém
conseguir abrir. Enclausurei-me num sonho. E ninguém quis me acordar. Passei
dias em preto e branco, te esperando colorir. Enfrentei dramas em
cinemas-mudos, pra não perder a voz quando você estivesse por perto.
Gostei de você como tinha que ser. Sem
precisar de saia ou muita pintura na cara, logo pela manhã. Seu cabelo
desgrenhado, vestindo minha camisa larga, te caía muito bem às seis da tarde. O
seu charme era surreal. Desses que ninguém – digo os outros caras, considerados
normais – quebraria o pescoço pra admirar. E o seu cheiro de banho-recém-tomado
e flores; em nada se parecia com o das garotas “comuns” cheirando a açúcar
queimado e frutas.
Tenho as coisas escritas e desenhos
rabiscados em cadernos largados na gaveta do quarto. Te gravei em cada detalhe
para que não me esquecesse.
Cante pra me fazer dormir... me faça sonhar e
saia. Feche bem a porta, apague a luz, e, não deixe nenhum pesadelo no armário.
Esvazie tudo o que puder.
Voe pro alto, mas cuidado pra não tropeçar no
chão duro. Nade para o fundo, mas cuidado pra não se afogar, eu não estarei lá
pra te reanimar. Só não fique aqui, porque, quanto mais perto, maiores serão as
chances de se machucar. Talvez tenhamos sido prometidos, um ao outro, mas
esqueci de mencionar o quão ruim eu era. Ainda sou. Posso estragar tudo que
construímos. Com um sopro leve. Então, por favor, fuja. Será mais seguro.
Acredite em mim. Pois enfraqueceremos com a nossa proximidade.
Tente entender que a maldita emoção que nos
junta, também nos afasta. Essa briga de amor será o nosso fim. E por mais
dolorosa que seja a chuva caindo por sobre meu rosto. Você ouvirá o meu grito
ao se distanciar e a sua vida puder continuar.
Escrito em parceria com Pedro Bezerra
Ilustrado por Susi Godoy
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