Nossos Velhos Fragmentos




Enchi os pulmões de ar. Porque era a única coisa que eu podia preencher. O resto continuaria vazio...


Fui obrigada a ouvir que o tempo já voou, pra bem longe, e que eu deveria ter voado junto dele. Que essa mania de ficar aqui e repassar, minuciosamente, tudo o que vivemos de sorrisos a aromas, vai acabar me enlouquecendo. Eu sei. Mas é que eu não queria que você ficasse para trás. Queria continuar te lembrando em tudo o que me fez bem e acabou. Remoer os pedaços até que eles virassem pó, e desaparecessem sozinhos. Sem que eu precisasse me esforçar muito pra isso.


Você sempre deixou claro que as coisas não poderiam ser mágicas. Que elas começam, terminam; e recomeçam em outros olhos, outros abraços. Mas em nosso mundo não tinha porque esperar a chuva passar, para corrermos em abraços. Os sonhos não dissolviam na água, não eram ralos. E descalços era bom sentir a terra molhada em nossos planos. Pulávamos em poças, de mãos dadas, e nossas lágrimas viravam apenas garoa fina, escorrendo toda dificuldade. Fomos arco-íris, belo e rápido.


Quantas coisas estragaram, na tentativa de fazer com que tudo desse certo?


E enquanto misturo os barulhos da noite com a música que toca baixo, e os pensamentos em você. Meus olhos pesam cansaço. E minhas costas imploram descanso. Não posso dormir. Reflito no teto, como é que você espera que eu acabe com tudo o que fomos, dentro de mim, tão rápido. Se esbarro com nossos fragmentos a todo momento. O quanto foi bom manter o nosso coração blindado. E o quanto doeu ver ele se quebrando enquanto ainda valia a pena. E não valia mais nada.


“Você não precisa ficar tão só” – Foi o que seus olhos disseram íris refletindo pena e sensação de liberdade, respectivamente. – como se fosse fácil pavimentar essa estrada que permaneceu cheia de buracos, cheia de esquinas vazias. Cheia de becos escuros.


Mas não precisa se preocupar com a minha solidão. Pode ir. Prometo que não me importarei mais. Que você pode ficar a vontade pra juntar tudo o que deixou espalhado no chão de casa, e partir... Em linha reta. Caminho torto. Ou para o outro lado da calçada. Tanto faz. É só sair. Sem fazer muito barulho, por favor. Não quero ter que ficar lembrando o barulho das gavetas vazias. Do zíper das malas. Do seu perfume vento a fora. Nem da porta batendo nas suas costas.


Não deixe que a sua consciência comece a pesar. Vá para não voltar. Só quero que saiba que os porta-retratos ficarão vazios. É melhor conviver com o vidro refletindo a luz, e a madeira em tinta gasta. Do que sentir o golpe destes papéis que eternizaram nossos bons momentos. É melhor que eles fiquem seguros em uma caixa. Juntos com outras milhares de velhas recordações, que não convém jogar fora. 


Ilustrado por Susi Godoy

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