Não. Ainda não é tarde demais. E não estou
totalmente perdido. Talvez um pouco longe de casa. E Nessa de fechar os olhos
para o mundo. Tornei-me um terreno baldio. Aceitei alguns fatos. Acordei muitas
vezes anestesiado pela situação em que me encontrava. Tentei beliscar a mente
pra que acabasse logo. Querendo que fossem apenas sonhos ruins. Chorei porque
tudo ainda estava na mesma: o monstro do escuro não foi embora. E o dia ainda
não clareou de uma vez.
A chuva virou apenas lágrimas em meu rosto...
Lembro-me em vultos rápidos e distorcidos.
Mãos macias que afagavam meus cabelos. Uma voz doce e abafada que espantavam os
fantasmas do meu armário; e os que estavam embaixo da cama. Um colo gentil que
me abrigava quando eu tivesse medo. E era bom ter um copo-de-leite-quente e um
sorriso largo, me esperando chegar. Eu quis voltar. Juro. mas os portões já estavam trancados. Cadeados enferrujados.
E eu não tive coragem suficiente para gritar.
A garganta trancou as passagens de ar. E de
esquecimentos. Senti a boca do estomago queimando todo nervosismo que engoli a
seco.
Costumava ter um criado mudo e um colchão
macio. Onde hoje há só calçadas e um chão frio. Minhas costas estralam e minhas
mãos tremem, mas não sinto mais nada além de muita falta. Aliás, creio que foi por
conta da falta que adormeci. Que procurei me entorpecer por inteiro. Pra esquecer
os muros que me isolaram de mim mesmo. E alucinar sonhos, que me obrigaram a
acreditar que seriam, impossíveis. Nunca gostei de admitir fraquezas. Mas já
não aguento mais me fortalecer naquilo que me apodrece aos poucos. Sentei ao
lado de outros que assim como eu, estavam famintos de uma mão disposta a
oferecer um prato de sopa quente. De ajuda. De compreensão. De otimismo. E
aceitar apenas alguns trocados de gratidão como pagamento.
Permiti que acendessem uma lâmpada ao lado da
cama nova. Para me manter acordado enquanto consertava os sonhos queimados. Enquanto
me desfazia de tudo que aprendi e julguei certo. Mas que era duvidoso e quase
me enterrou vivo. Parei de seguir a luz fascinante do fim do túnel, porque sei
que ela nunca iria chegar. E quando chegasse talvez eu não conseguisse nem
abrir os olhos novamente. E com um pé da frente do outro para não tropeçar. Passei
de uma peça em check-mate, pronta à
ser derrubada. Para ser jogador pronto para vencer nesse jogo cruel. O
tabuleiro da vida.
O caminho é longo. Assino. Aceito. Percorro. Se
me perder. Faço da perda estrada nova. Só preciso de um dia após outro. Pulmões
cheios de ar. E o canto dos pássaros afinados – já não tão confusos. Ecoando em
minha mente. E quando o dia clarear por inteiro. Permito-me tentar sempre mais
uma vez. E se eu tiver que mendigar por algo. Que seja por mais amor em mim.
Escrito em parceria com Pedro Bezerra
Ilustrado por Susi Godoy

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