A manhã, dentro de mim, está morna. E o tempo lá fora só me obriga lembrar, do frio da cidade, e, do calor da sua companhia. Raras sinfonias.
Deixei
meu manual de instruções – traduzido em cinco línguas diferentes – pendurado na
parede do seu quarto. Eu mesma nunca tive paciência para lê-lo. Mas achei que
você pudesse decifrar os meus sonhos. Que pudesse entender, quando eu me
desentendesse. Que conseguisse me fazer, caber dentro de um abraço. O seu. Só
que você o deixou mofar, junto com a pilha de livros e discos que nunca
chamaram sua atenção. Dizia que era capaz de me soletrar. Me entender em
silêncios e sombras. Me fazer de soneto. Rimar cada ultima palavra dos meus
suspiros, em fins de tarde. Ler as linhas das minhas mãos suadas de euforia. E
traçar um futuro bonito – Sorria fácil, e batia o pé, jurando que tudo isso era
possível, porque éramos exatamente iguais.
Engano
seu.
Eu
era feita de linhas de horizontes. Distantes. Não me deixava acabar no final de
cada refrão. Forte intensidade. E você meticuloso em cada timbre que compunha a
harmonia em seus dias. Vertical. De finais previsíveis. Sem surpresas. Sem
pupilas dilatas.
Deselegância
do tempo. Ou não. Nosso som não durou. Degradou. Perdeu essência. Altura. Caiu.
Não virou nem sussurro, ou canção de ninar.
Você
saiu ondas sonoras a fora. Tropeçando em resmungos agudos.
Eu
fiquei. Presa na velocidade do som. Sem saber se é muito rápido. Ou lento o
bastante pra enrolar partituras em mim.
E
hoje...
Meu
rádio oscila entre canções, que não entopem meus tímpanos de você. E as que
estão cheias de notas do seu perfume. Acordes da sua respiração pesada. E os
mais variados tons da sua voz. Melodias que remetem a situações que me esfria a
cabeça, ao passo que me esquenta o coração. Momentos que – você deixou muito
claro, quando diminuiu o seu volume em mim – seria adequado esquecer. Mas é bem
verdade, que se às vezes me distraio, me pego dançando. No chão marcado pelo
ritmo das nossas valsas desajeitadas. Em meio a noites chuvosas e abafadas. É
quando entendo que não acho graça em sintonizar outras estações só pra tentar
tirar você da minha frequência. Equalizei você. Só para continuar com essa
sensação de que eu e você, somos iguais.
Unificar
essa divergência de opiniões entre: as suavidades das letras, nas cartas que te
escrevi pedindo que se fosse pra me deixar aqui, que você levasse ao menos
metade do meu coração. E a sinfonia pesada das suas decisões ensaiadas na
frente do espelho, de querer ser só mais um no meio da multidão.
Vá
com a certeza que levará apenas os meus versos mudos e incompletos.
E
que eu seguirei completa. Com Play e Repeat na medida certa, pra compor um
rumo certo. Onde você será apenas inspiração, em trilhas sonoras de devaneios
desnecessários.
Ilustrado por Jefferson Ramos "Project: But you are the only
exception"

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