Sabe...
A gente sempre vive a melhor fase achando que
é a pior. Simplesmente pelo desprazer de dizer que era feliz e não sabia.
São vinte e tantos anos, e, se for parar pra
pensar isso nada significa porque cada ano sabe a dor e a delicia da experiência
que nos proporciona. Passei pela fase dos desenhos coloridos. Das letras tortas
e arredondadas pelo excesso de fantasia. Da falta que a falta do que fazer ao
acordar causava. Do cobertor no sofá o dia inteiro. Da vontade de bater a porta
nas minhas costas e por consequência na cara de alguém. Dos travesseiros encharcados
pelas lágrimas sofridas de um choro bobo. Do coração partido por amores que na
verdade mais se pareciam com uma prisão de ventre, que quando passa alivia até
a respiração. Da vontade de ficar no escuro do quarto. Da volta a idolatrar os
dias de sol. Da reconciliação com as roupas mais coloridas. Das musicas tristes.
De precisar do passado pra pensar no amanhã, e esquecer que eu estava aqui me
esperando. De deixar oportunidades passar por medo que a felicidade passasse e
deixasse a dor mais uma vez pra eu cuidar. De cantar desesperadamente no
chuveiro pra abafar problemas que pareciam sem solução. De gritar pra dentro e
sobrecarregar o coração...
Às vezes viver mais se parece com caminhar
sobre carvão em chamas.
Vivo dias que pelo menos metade das coisas
quero esquecer. Torço para que o ponteiro das horas virem os que contam os
segundos, e que os segundos andem tão depressa que se tornem vultos. É bom que
o dia passe despercebido: pela correria das atividades que por vezes me sufoca,
pelo stress que o acumulo de pessoas
nas plataformas, nos transportes coletivos e na mente, me causa. Pelo aperto de
todo mundo que também se sente apertado. Pelo fardo que entorta as costas. Pela
vontade de me dedicar a fazer o que gosto, e que isso me sustente. Pelas
armas já tão gastas por conta dos leões, dragões, dinossauros que tenho matar
por dia. Pelas contas que brotam e não acompanham o dinheiro que entra...
É bom quando o dia vira noite, mas seria
melhor se ela viesse mansinha e que não copiasse os perrengues do céu ainda
claro.
Tenho deixado algumas utopias me esperando,
quietinhas com olhos atentos, bem ali onde a deixei já algum tempo. Elas não se
mexem, não se movem e espreitam uma brecha no meu pensamento acelerado para se
instalar. É que estou sempre ocupada demais para dar atenção devida a ela, enquanto
ela só quer que o meu mundo seja fantástico, ideal, mesmo que imaginário. Ainda
sim as cultivo sempre por perto. Pra continuar querendo todas as coisas, viver
todos os impulsos. Desejar que a simplicidade se torne rotina, e que eu
continue precisando de pouco pra viver bem.
O essencial é insensível ao toque.
Costumo não reclamar de muita coisa, mesmo
com os olhos pesados e os ombros cansados. É que já vi gente sendo feliz
alimentando uma bomba atômica no organismo, e ali adotei uma filosofia de que
reclamar não soluciona problema algum. E sorrir é o melhor remédio para tudo,
para todos, mesmo que às vezes seja só um cuidado paliativo, só uma maneira de simplesmente
fugir. Tenho todos os sonhos do mundo presos em algum lugar do peito protegidos
por uma camada generosa de pensamentos lógicos, e por soldados fortemente
armados de responsabilidades e obrigações.
Posso riscar planos. Cancelar compromissos.
Mas nunca cortar minhas asas.
Andei blindada. E ainda que necessitasse não me
permitia sentimento algum. Dei um ultimato para o tempo e por nunca gostar de
esperar. Só esperava ser surpreendida. E de tanto pisar em ovos com essa coisa
de emoção. A vida veio e num lampejo de solidariedade – talvez não tenha sido solidariedade,
mas sim tudo o que tem que ser e a gente não tem ideia do quanto precisa aguardar –
e trouxe todas as respostas pra tudo o que me perguntei durante essa breve
vida.
Tenho um sorriso pra me motivar pelas manhãs,
ainda que o cansaço me amoleça as pernas. Uma voz pra me lembrar de que eu
posso ser melhor a cada dia, mesmo que o cinza do céu não me motive a sair da
cama. As melhores lembranças pra clarear a minha mente preocupada e até
sobrecarregada. E um motivo pra aprender a pensar no futuro, e que a
individualidade misturada à palavra 'nós' se transforma em juntos-somos-ainda-melhores.
E apesar do medo que às vezes bate em não conseguir ser o melhor que você
precisa pra ser feliz. Eu prometo me arriscar, e não economizar em nada que nos
proporcione os melhores momentos. Principalmente por ter certeza de que tudo
que precisamos para uma vida juntos é a simplicidade de um abraço. E a
cumplicidade do encontro dos nossos olhos.
Nem todo mundo precisa saber o que é ser
bem-sucedido, para viver como se tivesse a maior riqueza da terra.
Ilustração: Susi Godoy

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