Acordou com uma disposição que não era dela.
Algo no jeito como abriu as janelas pela
manhã soprou no seu rosto que deveria passar o dia leve, juntando coisas das
quais mais lhe agrava fazer. Se permitiu algumas extravagâncias, fugiu da
dieta, trocou a cor da parede da sala, recortou frases bonitas de revistas
velhas, escreveu bilhetes autocolantes, pensou nele. Separou fotos, rememorou
datas, encontros, presentes, beijos, noites quentes. Pensou em surpresas,
voltou pra rotina trabalhou como se fosse o primeiro dia na empresa,
desenvolveu as atividades como se tivesse ganhado uma promoção, olhou para o
relógio como se fizesse as horas passarem mais rápido.
Aproveitou cada segundo do seu dia como se à
noite lhe prometesse algo inesquecível.
Acelerou os passos ao sair da rotina,
observou o mundo a sua volta, nunca sua visão periférica lhe pareceu tão
aguçada. Era como se pudesse presenciar milhões de atos ao mesmo tempo. Ter
dentro de si todos os sentimentos do mundo. Sem duvidas aquela sensação era
estranha, mas estava confortável o suficiente, para ela se sentir confiante e
segura de si. Lembrou que ele adorava surpresas fora de datas especiais, sobre
tudo aquelas que envolvessem uma noite fantástica e um café da manhã com
direito a uma dose extra de caricias e intimidade a flor da pele. Imaginou um
bom motivo para sair da rotina, entrou no sexy
shop e fantasiou tudo aquilo que ele mais gostava.
Chegou em casa mais radiante do que havia
acordado. Costumava avisar que estava chegando assim ele poderia encontrá-la no
portão com aquele sorriso de mover montanhas. Mas o dia exigia surpresas. Pegou
sua chave em silêncio e na ponta dos pés entrou. Tomou cuidado com a fechadura
da porta e até com a respiração. Não podia dar sinais da sua presença, estava
convicta de que iria arrancar espantos quando aparecesse pronta para todos os
desejos e vontades dele. Afinal depois de tanto tempo juntos, depois de toda
paciência que ele teve em esperar a sua timidez dar lugar a uma mulher mais
decidida, ele merecia todas as peripécias mais inimagináveis entre aquelas
quatro paredes, que se falassem, poderiam contar um livro de histórias.
Deixou a porta se fechar lentamente nas suas
costas, e no silêncio que se propagou, ouviu gemidos, intensos, altos,
alternando entre gritos e palavras sussurradas – palavras que ela jamais ouviu
– depois de ouvir o barulho inconfundível da cama que rangia desenfreada.
Seguiu firme pé-ante-pé sacudindo a cabeça
– Talvez seja coisa da minha cabeça, posso
estar ouvindo coisas, absorvi tantos sentimentos alheios que este só deve ser
mais um. Ou o meu inconsciente me fazendo ouvir a trilha sonora do que vai ser
esta noite...
Destrancou a porta do quarto, ainda incrédula
da trilha sonora que vinha lá de dentro. Olhou firme como quem desacredita da
sorte. E deixou tudo cair sobre seus pés, o vinho se misturou as taças
brilhantes em cacos que jamais seriam reconstruídos. Talvez o seu coração
também tenha caído ali. Era o amor da sua vida – era não seria mais – e sua
melhor amiga, aquela com quem compartilhara as melhores histórias, os piores
segredos, os detalhes mais íntimos da sua vida. Da vida dele.
Deu a última olhada, e era incapaz de
reproduzir qualquer som. Estava confusa, e desorientada. Deixou a chave reserva
– que não lhe reservaria mais nada – bebeu uma boa dose de silencio. Bateu a
porta para deixar bem claro que ali ela não voltaria. Se desfez do bom humor
que lhe rodeou o dia inteiro. Ateou fogo aos bons pensamentos e amaldiçoou
qualquer surpresa que pudesse pensar em fazer.
Pra ela a sorte nunca havia existido. E a
partir dali o amor também não.
Ilustrado por Lays Salles

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