Eu não sei se consigo me lembrar com clareza
da infância e dos amores que me faziam desenhar corações com iniciais no diário
que eu escondia pra minha mãe não ler. Mas eu posso sentir meus olhos brilharem
agora só de recordar que não havia pretensões e nem uma obrigação, era só pegar
na sua mão que o mundo já se parecia com um paraíso.
- Menina
eu pego na sua mão e digo que é minha namorada. Só sei o seu primeiro nome e
acho o seu cabelo de franjinha engraçado. Desculpa se ontem te empurrei no
recreio, mas foi à única maneira que encontrei pra ficar mais pertinho de você.
Quer dividir o lanche comigo? Minha mãe disse que eu podia dar um pedaço pra
quem eu mais gostasse na escola. Eu fiquei pensando e acho que é você mesmo. Depois
a gente pode brincar no balanço, prometo te empurrar até você se sentir como se
estivesse voando, indo pro céu de braços abertos e voltando pra mim. E aí a
gente passa algum tempo escolhendo desenhos no céu, sabe eu adoro enxergar
coelhos e tem vezes que eles parecem pular no azul. O que você acha?
- Eu não sei se meu pai ia gostar muito. Ele
disse que eu não podia falar com estranhos. Mas pensando bem você não me parece
estranho, e talvez seja só coisa de gente grande mesmo. Acho você até bonitinho
– desculpa, fiquei muito vermelha – eu gosto quando você vem sentar do meu lado
eu acho que as outras crianças não gostam muito de mim. Então eu acho que ele
não vai ligar se eu ficar mais perto de você. Ontem de manhã eu fiz um cartão
pra você, mas joguei fora não sei escrever direito e pensei que você não
pudesse gostar. Depois da escola a gente pode correr até o final da rua pra
ninguém ver a gente? Eu não gosto quando os outros apontam o dedo e cantam
musiquinhas idiotas, dizendo que somos namoradinhos, isso faz parecer menores
do que esse amor que nasceu. De silencio eu entendo e queria compartilhar com
você.
- Ah eu fiz uma cartinha pra você, mas
promete que vai ler só quando você chegar em casa, é que eu tenho vergonha de
você achar que eu sou bobo demais, então é melhor esperar até amanhã pra você
dizer o que achou.
- E eu trouxe esse ursinho pra você, se você
quiser a gente escolhe um nome juntos pra ele. Ontem eu disse pra minha mãe que
tinha encontrado o menino mais legal da minha vida, e queria ela soubesse por
que eu tenho a impressão que vai ser pra sempre. Depois você pede pra sua mãe
te levar na minha casa? Pedi pra minha mãe tirar uma foto nossa pra guardar no
meu diário. Eu quero que a gente se recorde sempre que possível. Vamos casar?
Nascia um conto de fadas, sem fadas nem
gnomos, só com beijo no nariz, bochecha corada, sorrisinho mole e cartinhas com
muito glitter e poucas palavras
corretas. Eu tenho a foto aqui, mas não sei se ele ainda se recorda sempre que
possível. Abraço a inocência em sonhos e pensamentos. E pergunto porque a gente
perde ela pelo caminho?
Ilustrado por Lays Salles

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