Se ao menos você soubesse que juntos éramos melhores...
Moço:
Eu bem sei que você não consegue se virar
muito bem sozinho. E sempre que cruza o caminho de alguém e diz que está
muito-bem, na verdade já chorou algumas noites seguidas, essa sua mania de
acrescentar o “muito” às afirmações nunca me enganaram. E eu sei que é difícil
aceitar que apenas eu sabia disso, porque todos os outros continuarão pensando
que sua aparência renovada ao lavar o rosto pela manhã indica uma ótima paz de
espírito. Olha não se esquece de deixar o guarda-chuva na mochila porque eu não
estarei perto para te manter alertado quanto à previsão do tempo, eu sei que
essa parte do jornal não te interessa e não fosse eu, todas as outras vezes,
você teria voltado ensopado para casa, presta bem atenção porque além das
roupas que você não conseguiu aprender a lavar sozinho, eu sei que ainda não deu tempo de você decorar a receita do chá que eu preparava quando a teimosia não
deixava eu te proteger.
E me diga como anda a sua alimentação? Não
sei por que, mas eu tenho quase certeza de que o estoque de miojo na dispensa quase triplicou, e os
congelados já não tem mais espaço no freezer, te conheço bem. Você não leva
muito jeito com o fogão e o cansaço depois do trabalho faz com que as panelas
pareçam monstros pra você.
Eu sei que eu não deveria, mas tenho passado,
todos esses dias preocupada com você. Sei que fui eu que decidi não mais viver
ao seu lado, mas penso em você quase todos os dias e em como você costumava não
ser muito independente, respirar eu tenho certeza que você está tirando de
letra. Mas e de resto moço como é que você tem se virado?
- Tudo bem Moça, estou bem cuidado. Obrigado por se preocupar. As feridas já cicatrizaram bastante e o que sobrou já não dói mais. Tinha um coração bastante acelerado. Mas ele já tratou se acalmar. Então não precisa mais se preocupar. Agora, vem cá. E de você quem vai cuidar?
Ilustrado por Jefferson Ramos

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