Não só amadurecer, mas enfim abandonar a árvore


              Estive confortável por todo esse tempo. Mas não me deixei acomodar.
Já tive vontades e alguns planos em folhas soltas que eu acabei jogando fora. Não sei se por obra da vida ou porque não consegui nada concreto pra me agarrar e levar adiante. Vai ver foi apenas mais um sonho que eu acordei sem lembrar, quis pegar a independência que sempre foi minha de costume e sair porta a frente, mas sozinha o risco de querer voltar era muito maior. Achei melhor manter a porta do jeito que estava e ficar para o lado de dentro. Alimentando mais alguns sonhos e não esperando muita coisa. Sempre achei a esperança um sentimento ingrato e talvez desnecessário para muitas das situações em que me encontrei. E de tanto dar murro em ponta de estilete enferrujado adotei como filosofia de vida uma frase de um escritor famoso: “Antes surpreendida do que decepcionada”.
O teto garantido sempre esteve ali. Assim como o prato quente, as roupas cheirando a amaciante e sempre bem passadas, a luz na madrugada, o banho generoso e cama macia também. Nunca tive margens para reclamar. Sempre tive o que podia ter e posso dizer que era o que merecia ter. Mas de fato tudo isso nunca foi tão meu assim. Me ensinaram o que é ser responsável e desde muito cedo lidei com esse sentimento a ferro e fogo. É preciso de batalhas, cansaço e porque não fracassos pra poder chamar algo de “Seu”.
Inverti a posição de muitas prioridades, e de longe essa foi a melhor que coisa que eu poderia ter feito na vida. Meu senso de decisão me ajudou muito nessa hora. No meio de uma vida corrida, de uma falta de tempo filha-da-mãe decidi sair pra rever amigos antigos e não passar mais um sábado-a-noite em casa – sábados-a-noite mal sucedidos sempre foram motivos de depressão, mas não seria o meu caso – E nessa de querer distrair e não deixar o sábado me digerir, dei de cara com a peça fundamental. O que realmente faltava pra eu tornar meus sonhos concretos, palpáveis.
Encontrei alguém que eu pude dar as mãos e equilibrar dois mundos – tortos –  em apenas um só.
E logo eu que nunca fui fã do futuro. Hoje me pego pensando no amanhã, um amanhã próximo e próspero. Me permiti de vez, pegar a independência e sair pela porta. Simplesmente por não estar mais sozinha e ter alguém com que me preocupar. Não precisar mais voltar.

           Nenhum guerreiro nasce pronto, ele primeiro é forjado em circunstancias e desafios. Aguente firme. 


Ilustrado por Lays Salles 


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