O ser, o não ser e o eis a questão



Tive que acordar e achar o mundo mais animado. E quando digo "tive" nada tem a ver com a minha vontade própria. Tive porque não encontrei uma maneira melhor de passar pela vida sem achar o mundo mais animado.

Há um amontoado de caras amarradas sussurrando um bom dia amarelo e sem graça. Andando rápido e sem perceber que o sol já nasceu, que o céu tá azul e suas cabeças continuam cinzas. Pensando bem, o conforto do meu quarto me parece muito mais com ser feliz do que ter que sair para encarar a vida. Do meu quarto eu posso enxergar o céu, admirar o sol e colorir qualquer coisa que esteja ao meu redor. Posso gritar um BOM DIA, porque se ele não estiver bom pode escutar e melhorar assim mesmo.

Peço desculpas aos interessados se eu parecer chata e antissocial demais pra iniciar uma conversa sobre as coisas que andam fazendo sucesso na TV - eu não assisto TV - não adianta nunca prestei pra conversas de elevador e de transportes coletivos, aliás meus fones de ouvido continuam alto e eu não gostaria de perder a página do livro ou me desconcentrar do capitulo que eu comecei. Me apego demais aos personagens e por favor não insista eu não vou discutir o noticiário com você. Seja você quem for. E não é que eu não que me interesse pelas coisas que andam acontecendo no mundo, me preocupo quando ouço no rádio as atrocidades pela Terra, estou mandando todos os meus pensamentos positivos, por tanto não vou retrucar qualquer opinião. Sempre achei que todos acham demais enquanto se mexem de menos. E se eu não puder me mexer então é melhor não achar nada e continuar acreditando que cada um cultiva o que precisa ser cultivado.

Ainda sim estou de olhos abertos encarando o mundo mais animado.

Agradeço aos preocupados com meu estado e tendencia a ser solitária, mas o que vocês me oferecem como opção do que é viver não faz sentido. É tudo muito rápido e vago demais. O que pra todo mundo é intenso. Me desculpa mas não acho graça esquecer meu nome numa noite e acordar com a mesma roupa lembrando do nome mas esquecendo da noite. Continuo achando válido o interior do meu quarto onde posso apagar a luz quando quero e murmurar qualquer coisa sem sentido que me preencha o cérebro e me faça esquecer algum caos que por ventura possa me perturbar. Ao menos poderei me perder num pijama confortável e num disco velho, empoeirado, enquanto consigo escutar a minha voz e não observar ninguém vomitando todo desconforto que passou dias guardando na bolsa.

Eu não diria meu nome a qualquer um, e não iniciaria uma história inventada pra parecer legal. Eu não sou legal. Acho que nem de longe eu pareço legal. Não tenho um estoque de sorrisinhos para ocasiões especiais. E nunca precisei ser o que não era para pertencer a qualquer lugar. Sempre gostei de cantos. E permaneço no meu canto até achar que é hora de ir. Me faço perguntas demais e tenho sempre respostas de menos. Nunca parei pra pensar em regras e no que eu sou. E a diferença que faço pro mundo. Não sei.

Mas essa noite vou dormir achando o mundo mais animado. Não que eu seja tão animada quanto o que preciso achar do mundo. Meus pés mal cabem na cama, e isso já seria muito desanimador. Ao menos eu posso me esconder debaixo dos lençóis, embaixo dos sonhos.

Amanhã acordo mais tarde.

Foto: Lazaro Junior 

Nenhum comentário

Postar um comentário

Apenas diga!

Layout por Maryana Sales - Tecnologia Blogger