Então pode ir



 Vim aqui pra dizer que eu não me importo mais.

Você pode ficar a vontade pra juntar tudo o que deixou espalhado no chão de casa, e partir... Em linha reta. Caminho torto, ou simplesmente ir para o outro lado da calçada. Tanto faz. Não me interessa.

Não precisa nem se preocupar em arrumar a cama. Lavar a louça. Ou ajeitar meu coração. É só sair. Só não faça muito barulho, por favor. Não quero ter que ficar lembrando do barulho das gavetas vazias. Do zíper das malas. Do seu perfume vento a fora. Nem da porta fechando nas suas costas.

Deixa as cópias das chaves na estante. E jogue fora o pedaço do meu coração que foi seu, ele é bem inútil agora. Quanto ao par de alianças, se pra você teve importância, derreta, faça um cinzeiro, que é para jogar as cinzas da solidão que você vai fumar. E se a consciência pesar, eu guardei uma foto e um lenço com meu perfume, no fundo da sua mochila, que é pra você lembrar, que precisa esquecer logo.

Quero que saiba que os porta-retratos ficarão vazios. É melhor conviver com o vidro refletindo a luz. E a madeira de tinta gasta. Do que sentir o golpe do tempo que não foi capaz de corroer este papel que eternizou nossos momentos, que eles fiquem seguros numa caixa, junto com outras milhares de recordações que não me convêm jogar fora - não agora.

Eu sei que vou esquecer que a vida não é assim, tão fácil. E olhar as horas repetidas, no relógio que você não quis levar. Tolice. Você não estará pensando em mim... E ainda serei obrigada a me questionar sobre os meios que te fizeram me esquecer tão rápido. Sem saber se foi um daqueles porres de amnésia e gosto ruim de cabo-de-guarda-chuva-na-boca. Ou se foi simplesmente um daqueles choques que você costuma levar quando quer se livrar de alguém. E que te obriga até esquecer quem você foi, quando a gente se bastava pra viver.

Mas não me convenço que deixei de existir em mim. Por você.

Foto: Susi Godoy


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