Na distância. De mãos dadas...




Estávamos juntos, na distância. De mãos dadas. Porque era bonito de se ver. Casal daqueles perfeitos. Feitos em forma untada. Que tinha tudo para crescer. Por fora. Só por fora. Sustentados pela bela aparência, porque admitir que por dentro era cada um por si. Nos faria murchar. Desandar...
Por sorte. Ou não. Nada é pra sempre. Como você disse que seria.
E hoje quando acordei. Me dei conta que por você não sinto nada. Aliás, senti nada durante todo esse tempo que achei que você fosse quase tudo. Ilusão é assim mesmo.  
E no seu mundo não tinha espaço nem para um 3x4 meu, na carteira. No bolso. No porta-luvas do carro. No coração. Quem dirá para toda essa bagagem que preciso, para me instalar. Fui na intenção de ficar. Fiquei. No Rol da sua vida. Apertada. Sem conseguir nem sentar para esperar. Entre outras tantas prioridades das quais, você não abriria mão. Nem sem querer. Querendo me confortar, disse que logo daria um jeito, de inverter estas prioridades. Que eu ficaria pelo menos em segundo lugar. Nem em ultimo.
Você e sua mania de coração quebrado, exigindo conserto. Sempre me deixou desorientada. Nunca gostei de obrigações. Mas quando você chegou cheio de promessas. Sincero. Alimentando esperanças. Acreditei. Ensurdeci. Fiquei cega. Deixei acabar um amor verdadeiro – meio torto, mas honesto – que não fui capaz de corresponder. Para correr atrás você, que estava sempre precisando ir embora. O jantar na sua casa começa às 18h: “Não-posso-perder-é-desfeita”.  Mas prometia voltar. Estava do meu lado. Cada dia mais distante.
Te chamei no interfone. Incontáveis vezes. Ouvi sua voz. Senti seu cheiro. Eu juro. Mas você deixou ordens para dizer que você não estava. Apagou meu sorriso. Junto com a luz do abajur de cabeceira. Pra se esconder. De mim. De você. Da angustia que lhe prometeu companhia. Dos sonhos ruins que nunca te deixaram em paz. Nunca deixarão. Você só me notou. Quando decidi dizer adeus. Acreditou. Aceitou. Se amargurou. E me apagou. Da sua vida. Dos seus sonhos. Das mensagens pela manhã. Da prioridade na secretária eletrônica. Arrancou até a minha dedicatória no seu livro favorito.
Tive que viver a dois, por mim. Mas nunca estive bem assim. Deixei você escorrer no banho. Não volto. Tarde demais. 

Na ilustração Jefferson Ramos e Susi Godoy


2 comentários

  1. Eita quanta desilusão!! Quero ler um texto seu com o pensamento invertido hein?! kkk

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    Respostas
    1. Pode deixar! É que quando a inspiração vem. Não se pode ignorar. Ou pedir pra voltar mais tarde com outras roupas.. haha

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