Não tem luz, nem lágrimas. Só esquecimento


Tudo seco. Ar. Clima. Olhos. Coração. Boca. Sentimentos. E as mãos que antes costumavam suar.
Entramos num acordo.
O que passou. Passou. E o que ficou dane-se. O fim era cruel. Mas era o amigo mais intimo no momento.
Eu não quis que a luz estivesse acesa, porque eu sabia que os seus olhos já não encontravam mais os meus. E a tristeza só iria ser maior – se eu te visse fitando o tapete da sala, ao invés de olhar pra mim.
A janta estava fria. Pratos e copos descartáveis. Não ia ter ajuda na louça mais uma vez.  Você dispensou o vinho. Porque precisava de toda a sua sobriedade pra desafogar o peito. Eu não queria mais mentir. E você nunca soube chorar. Eu não tive o trabalho de me olhar no espelho, nem me perfumar. Não me exigia luxo nem cuidados. Nada mais ali me merecia por inteira. Você veio de chinelos e não teve o trabalho de deixá-los ao lado de fora. Voltou a fazer a barba, e não tinha mais o mesmo cheiro amadeirado.
Entrei na sua vida, porque queria entrar. E estou saindo dela pelo mesmo motivo. Você nunca esteve, de fato, na minha. Juntou motivos pra deixar tudo confortável. Estável. Cômodo. Éramos boas companhias quando o barulho do mundo não nos interessava. Nosso silêncio era a paz que precisávamos para esquecer a rotina atordoada. Mas era só. Não tinha parceria ou cumplicidade que nos transformasse em algo para se planejar uma vida inteira. Me sentia bem ao seu lado, mas estava melhor ainda quando estava longe. Você me idealizou em características que só encontrava em você, e eu estava longe de conseguir ser assim. As noites passaram a ser normais, eu já não sonhava mais com algo que nos envolvesse em boas paisagens, ou que me arrebatasse em cada manhã. Já não tinha mais nem vontade de sonhar, era melhor dormir no escuro de um sono profundo e não ter nada pra tentar forçar minha memória. Eu sei você também esqueceu como se deseja um bom dia pra quem se gosta. Não gosta mais.
Pelo menos vamos ter o que contar enquanto outros contos não aparecerem para mudar nosso rumo.
Vou sentar diante da tempestade e não vou mais lembrar você, entre as gotas que se misturam as lágrimas. E eu sei você vai sentir o lugar vago do seu lado, mas vai se sentir livre pra mudar de lugar quando o braço adormecer. E pensando bem nunca conseguimos desvendar nenhum mistério enquanto nos rondávamos. Faltou dedicação e vontade. Deixa o amanhã pra lá. Vamos nos concentrar apenas em nos esquecer. E nos lembrar de não acender nenhuma luz.
Seguir outro caminho é sensato. E se for pra te encontrar mais tarde. Amanhã. Ou daqui a dez anos. Que seja em um oi-tudo-bem mais leve. Despretensioso. 
Ilustrado por Susi Godoy

2 comentários

  1. Não sei se sou eu, meu estado de espírito, ou se é realmente o texto mais triste seu! O que acha? Já vivenciou isso? Está muito vívido! Parabéns!

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    1. Eu acho que pode ser uma mistura das suas três constatações.
      Não vivenciei.... E colocando em palavras. Pretendo não vivenciar...
      Exercicio para o cérebro Escrever ao contrário do que se está sentindo.
      Muito Obrigadaa!!

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