Olhou por cima dos óculos – grau forte, olhar
desconfiado – em uma tentativa de desafiar o mundo a sua volta. Achou que
intimidaria a artilharia pesada do tempo, que insistia em não passar, e levar
todas as lembranças que dançavam em sua mente todas as vezes que tentava dormir
mais cedo. Nunca conseguia. O sono vinha mesmo, era pela manhã quando seu dia
estava cheio de tarefas, e coisas que precisavam de cores e formas. Trabalhava
duro e pesado, e às vezes duvidava dos motivos que o fazia perder uma semana
inteira de sol.
- É como estar preso – podia falar sozinho, porque
era cedo e não havia ninguém por perto para questionar sua sanidade – Não posso
abrir as janelas porque não refrescaria o ambiente. E nem as portas.
As persianas cerradas não escondiam a claridade do
dia. Mas não iluminavam o suficiente para desligar as lâmpadas fluorescentes.
Não eram nem oito da manhã, e seus olhos já estavam cansados. Os sapatos
apertando. E a gravata só piorava o nó na garganta. Poderia sair correndo. Esquecer
de todo o nada, que o atormentava naquele lugar. Mas o carteiro não tinha dó,
nem culpa, de ter deixado milhares de contas em sua casa. Talvez se rasgasse.
Mas ainda assim não se veria livre delas.
- Tenho em mente tudo o que quero, mas não sei se
quero tanto assim. Estou vivendo para o depois-de-amanhã. Enquanto meus pés
gritam hoje por um pouco de terra úmida embaixo deles.
Agora só podia pensar. Todos já estavam acomodados em
suas cadeiras tortas. E concentrados. Embora muito atentos ao movimento em sua
volta.
Meio-dia-e-meio, o relógio não tinha complacência. Se
arrastava até quando o estomago se manifestava. Cansado de tantas xícaras de
café, e pouco alimento sólido. Era hora das piores filas, e dos assuntos mais
sem graça em torno de mesas não tão limpas assim. Pensava em seus amigos, e no
pouco tempo que podia aproveitar jogando conversa fora. Pensava no vinho
gelado. Nos acordes mudos. Nas gargalhadas sem pressa. E nos sonhos riscados embaixo do travesseiro, ainda quente.
Pensava em sua namorada, e nos ombros macios que o esperavam nos finais de
semana. Ela o fazia se sentir importante para alguém no mundo. Esquecia-se dos
números. Das telas do computador que lhe cansava a visão. Ela desfazia os nós
da gravata, e aliviava os da garganta também. Ela era paz que lhe fugia.
- Não sei se te mereço.
- Para com isso você sabe que não tem essa de
merecer.
- Eu não faço nada além de ficar aqui. Preso nas
coisas que eu preciso me desfazer e acabo te trazendo pro meu mundo, de frustrações
e cabeça baixa nos transportes coletivos.
- Eu só preciso do seu coração batendo pra sorrir.
Silêncio. Barulho da TV baixa. E os carros lá fora.
Tinha dessas de temer o futuro. De não ter o que
oferecer a ela, quando a maturidade viesse com as malas prontas para se
instalar. Tinha medo da maturidade também. Das responsabilidades não. Talvez fosse
isso que não o deixava abandonar o emprego, e a gravata apertada. Gostava dos tênis
desamarrados e do som – agradável aos ouvidos – que fazia com seus amigos nas
tardes de sábado. Tinham parados cantarolando os refrãos poético-pesados,
aqueles que torciam pra dar certo. Mas ainda não podia viver disso. Talvez o futuro desse um empurrão para que
vivesse do que realmente gostava. Continuava imerso nos sonhos riscados. Mas ainda
não podia colori-los...
- Vamos sair por aí?
- Por ai. Onde?
- Não importa. Quero o vento no rosto. Barulho de pássaros.
Cheiro de mato molhado. Flores secas. E você.
Esqueceu os tormentos. Alimentou mais algumas
utopias. Engasgou declarações. Engoliu reclamações. Abraçou o mundo. E sorriu.
Silêncio. O barulho do mundo. E as canções por
dentro.
Simplesmente Ilustrado por Lays Salles

Muito bom. Gostei da forma coloquial que usou no texto. Parabéns! ;)
ResponderExcluirMuitissimo Grata! Eu gosto de usar uma linguagem coloquial, para me sentir como se estivesse contando a história frente a frente com alguém!!!
Excluir